Calle Hispánica

Um passeio pela cultura em espanhol

Resenha: A Mulher Habitada, de Gioconda Belli

Como já comentei aqui no Blog, desde que a Calle Hispánica nasceu, me propus a conhecer melhor a literatura produzida nos países que falam espanhol. E para começar, escolhi o livro A Mulher Habitada, da nicaragüense Gioconda Belli.

Já posso adiantar que comecei com o pé direito! 🙂

Enredo

O desenrolar da história tem inicio a partir da índia Itzá, que morre lutando contra os invasores espanhóis. A partir do seu relato (e que relato, amigxs!), constrói-se uma ponte que nos leva do período da colonização até a década de 70, onde encontramos Lavínia, uma jovem arquiteta de 23 anos que, após concluir os estudos na Europa, volta à sua terra natal, a cidade fictícia de Faguas.

O que prendeu minha atenção já nas primeiras páginas, foi a forma bastante original e intrigante que a autora encontrou para contar a história dessas duas mulheres que, apesar de estarem situadas em duas épocas diferentes, são atravessadas e movidas pelos mesmos questionamentos: O que, de fato, significa ser mulher e como se impor num mundo governado por homens. (Não, eu não vou contar que forma foi essa 😜 rsrsrsrs)

Lavínia

Buscando tomar posse de sua independência, Lavínia deixa a casa dos pais e vai morar sozinha. Já em seu primeiro dia de trabalho num escritório de arquitetura, ela conhece Felipe, seu novo colega de trabalho. (Sim, tem romance nesse enredo!)

Apesar de a história se passar em Faguas, um lugar fictício, o paralelo que se estabelece com a Nicarágua é bem perceptível. A cidade do ‘faz de conta’ também passava, assim como a Nicarágua da década de 70, por um período de ditadura em que, adivinhem só: o rico cada vez ficava mais rico e o pobre cada vez ficava mais pobre (pois é, amigx! ‘Chibom bom bom’ é um canto globalizado!🌎).

À frente desse regime militar estava o ‘Grande General’. Do outro lado, lutando por transformações políticas, sociais e, principalmente em defesa da democracia, estava o Movimiento de Liberación Nacional, do qual Lavínia torna-se membro.

Ytzá 

Todos nós já lemos ou ouvimos algo sobre o período da colonização. No entanto, em A Mulher Habitada, Gioconda vai além de narrar fatos desse período. Nos trechos que em Ytzá aparece em cena, a história é narrada em primeira pessoa. Ou seja, a sensação que temos é a de estar cara a cara com ela (para falar a verdade, quase podemos ver, através das letras, a expressão em seu olhar! 👀).

Resumindo: A obra de Gioconda Belli traz duas mulheres que participam de forma ativa dos acontecimentos que transformam a realidade. Aliás, esse é mais um ponto forte da história: mulheres revolucionárias! Ytzá contra os invasores espanhóis e Lavínia contra a ditadura imposta pelo Grande General.

O livro, além de nos apresentar questões relacionadas à história, também nos leva a reflexões sobre a posição da mulher na sociedade.

Gioconda Belli pontua, ao longo da narrativa, dúvidas e questões internas com as quais a maioria de nós, mulheres, nos identificamos (que lugar queremos ocupar? Que lugar ocupamos atualmente? O quanto evoluímos desde os tempos de Ytzá até hoje? O que podemos fazer para garantir nossos direitos? – e por aí vai…).

Eu diria que só por ativar essa luz interna dos questionamentos (💡), já considero a leitura muito válida!

Sobre a Gioconda

A autora de A Mulher Habitada nasceu em Mánagua, Nicarágua. Gioconda viveu a ditadura de Somoza e fez parte da Frente Sandinista de Liberación Nacional.

Suas obras já foram traduzidas em mais de 14 idiomas e o livro A Mulher Habitada (1988), recebeu o Prêmio de la Fundación de Libreros, Bibliotecarios y Editores Alemanes e o Prêmio Anna Seghers, da Academia de Artes de Alemania.

Y Además…

Te dejo una parte del relato de Ytzá sobre la colonización:

“Los españoles decían haber descubierto un nuevo mundo. Pero ese mundo no era nuevo para nosotros. Muchas generaciones habían florecido en estas tierras desde que nuestros antepasados, adoradores de Tamagastad y Cippatoval, se asentaron. Éramos náhuatls, pero hablábamos también chorotega y lengua niquirana. Sabíamos medir el movimiento de los astros, escribir sobre tiras de cuero de venado. Cultivábamos la tierra, vivíamos en grandes asentamientos a la orilla de los lagos, cazábamos, hilábamos, teníamos escuelas y fiestas sagradas.
Nadie puede decir cuál habría sido nuestra historia si tanta tribu no hubiese sido aniquilada. Los españoles decían que debían civilizarnos, hacernos abandonar la barbarie. Pero ellos, con barbarie, nos dominaron, nos despoblaron. En pocos años hicieron más sacrificios humanos que nosotros en el tiempo largo que transcurrió desde las primeras festividades.
Este país era el más poblado. Y, sin embargo, en los veinticinco años que viví, se fue quedando sin hombres; los mandaron en grandes barcos a construir una lejana ciudad que llamaban Lima; los mataron, los perros los despedazaron, los colgaron de los árboles, les cortaron la cabeza, los fusilaron, los bautizaron, prostituyeron a nuestras mujeres.
Nos trajeron un dios extraño que no conocía nuestra historia, nuestros orígenes y quería que los adoráramos como nosotros no sabíamos hacerlo.
¿Y de todo eso, qué de bueno quedó? Me pregunto.
Los hombres siguen huyendo. Hay gobernantes sanguinarios. Las carnes no dejan de ser desgarradas, se continúa guerreando.
Nuestra herencia de tambores batientes ha de continuar latiendo en la sangre de estas generaciones.
Es lo único de nosotros, Yarince, que permaneció: La resistencia”.

Confira também: Dica de leitura: Las Cosas Del Querer, de Flavia Álvarez

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