Planejando viajar para o Chile, mas ainda não fechou o roteiro? Então, anote aí as dicas da jornalista Sílvia Amâncio, que esteve por lá em novembro de 2016 🛫🌎

“Vale a pena passar 5 dias no Chile? Vale muito. Com um bom roteiro, disposição para andar e uma boa companhia sempre vale a pena. Em novembro do ano passado, eu e uma amiga embarcamos para Santiago. Nossa ideia é conhecer toda a América Latina e o Chile nos encantou desde a primeira pesquisa.

Cheguei de madrugada em Santiago do Chile, após um voo tranquilo, exceto a parte que sobrevoamos as Cordilheiras do Andes, devido à turbulência, meu ateísmo agnóstico me deixou na mão…

Me hospedei no bairro residencial de Providência e, de imediato, tive uma aula de cidadania. Os funcionários públicos do Chile estavam em greve (paro). Do lixeiro ao médico, do carteiro ao professor, todos nas ruas unidos em prol do coletivo. Nunca pensei que sairia do Brasil para acompanhar uma manifestação em outro país. Mas valeu cada momento, cada cartaz traduzido naquele portunhol safado…

No primeiro dia fomos ao Centro de Santiago, na Plaza de Armas, local da fundação da cidade por espanhóis que vieram do Peru (marco zero), com  muitos artistas de rua, artesanato, haitianos (eles estão por toda América Latina) e os ‘Carabineros de Chile’, os guardas municipais que chamam atenção por sempre andarem com seus escudeiros, cachorros resgatados das ruas, que fazem a festa de crianças e turistas. Não tem como passar por um ‘perro carabinero’ e não se encantar. Os chilenos amam os cachorros e por toda cidade há estátuas deles.

Carabineros y sus perros

Do Centro seguimos para o Mercado Central de Santiago, onde almoçamos a comida mais tradicional chilena: ‘lomo a lo pobre’, o prato feito deles, que consiste num amontoado de batatas fritas com carne cozida e muita cebola roxa.

Lomo a lo pobre

Por toda Santiago temos acesso a várias pontes sobre o Rio Mapocho, que nasce do degelo das Cordilheiras dos Andes e abastece parte das cidades chilenas.

Ainda em Santiago, muitos parques, obras de arte pelas ruas e muitas árvores, muita cobertura vegetal mesmo. A cidade é muito seca e muito poluída, por isso muito verde. Vale a visita ao Parque das Esculturas, Palácio de La Moneda (a residência oficial da presidente Michele Bachellet), o Museu dos Correios, o Museu Histórico Nacional, Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, o Parque Quinta Norma, fundado em 1842 e aos Cerros Santa Lucia e San Cristóbal, que são morros no meio da cidade que eram fortificações na época colonial espanhola. A visão privilegiada da cidade é de arrepiar.

Outro detalhe de Santiago é que as ruas têm Plátanos do Oriente, uma árvore frondosa com folhas verdes estreladas e, para meu espanto, após um tropeço e queda na rua, me vi em cima de uma moita de Alfazema. Fiquei toda ralada, mas bem perfumada… Depois do tombo fui provar a bebida tradicional chilena, o Pisco Sour, uma mistura de suco de limão, aguardente e clara de ovo…bem doce!

Partimos da capital chilena e fomos para o Vale de Casablanca, onde encontramos as maiores e melhores vinícolas do mundo e simpáticas lhamas que cospem nos turistas que ousam importuná-las.

Vale de Casablanca

Nessa região, é recomendável fazer tour nos vinhedos e degustar sem medo de ser feliz os vinhos, todos eles, Merlot, Cabernet, Sauvignon Blanc… Mas a compra é melhor fazer nos supermercados, é sempre mais em conta. Ainda sobre bebidas, recomenda-se provar a cerveja Austral, produzida com água das Cordilheiras desde 1896. Que saudade!

Depois de um dia de várias taças, de manhã bem cedinho vale ir para a cidade portuária de Valparaíso, conhecida como a ‘Joia do Pacífico’ e patrimônio da humanidade. Por suas ruas, muito grafite, cortiços, feiras livres, trólebus, uma das famosas casas do poeta Pablo Neruda, ‘bastiana’, o Museu Marítimo que tem a cápsula que resgatou os mineiros de um grave acidente em uma mina de cobre (a grande riqueza do Chile), o Hotel Rainha Vitória e a Marinha Chilena, construções imponentes da Plaza Sottomayor. Também em Valparaíso está o Congresso Nacional Chileno, transferido da capital pelo ditador sanguinário Augusto Pinochet, durante a Ditadura Chilena, com a desculpa de “descentralizar o governo”.

Casa de Pablo Neruda, em Valparaíso

Os brasileiros dizem que Valparaíso é uma mistura de Rocinha com Pelourinho, eu achei riquíssima a comparação. Por lá, não deixe de experimentar ‘el completo italiano hot dog chileno’, que leva muito abacate no recheio. Aliás, no Chile, até o Big Mac tem avocado.

Ainda no litoral, visitamos Viña del Mar, cidade à beira do Oceano Pacífico fundada pela elite chilena para manter-se afastada dos pobres. A cidade era uma grande vinícola chamada ‘Hacienda Siete Hemanas’ e hoje é um refúgio dos ricos, com condomínios luxuosos, hotéis cinco estrelas e um casino público (sim, público). A dica é visitar o Museu Fonck que conta com um exemplar verdadeiro de moai de rocha vulcânica retirada da Ilha de Páscoa (que pertence ao Chile). Só três moais estão fora de casa, esse em Viña del Mar, um na França e outro na Inglaterra. Em Viña del Mar vale provar as empanadas e o helado de pistache. Nem pense em tentar dar um mergulho no mar, é gelado demais da conta.

Sílvia em Viña

Também na costa chilena, visitei a cidade de Isla Negra, onde fica mais uma casa do poeta Pablo Neruda. Essa, em forma de barco, abriga um museu e o túmulo do poeta, que era grande amigo de Jorge Amado e, dizem, foi envenenado pela Ditadura Chilena. A vista do Oceano Pacífico é inebriante. Em Isla Negra tive a coragem de provar a cerveja Krenbier com a famosa “Michelada”, que é a borda do copo com sal e pimenta. Sapequei a boca toda!

Da praia com um sol preguiçoso, partimos para o Vale Nevado, que em novembro tem apenas as neves permanentes no topo das montanhas, mas no inverno é a estação de ski mais famosa do Chile. A subida até o topo dura cerca de 40 minutos, com muitas curvas, mas compensa pela paisagem e companhia da trilha do Rio Mapocho. O visual é uma mistura de morros secos, neve e deserto, com um vento frio de 12 graus. O Vale Nevado fica ainda mais encantador com o silêncio das montanhas e o voo solitário do Condor, que de asa a asa chega a medir quase 2 metros de comprimento. Mas um capricho da natureza.

Cordilheira dos Andes

Notei algumas curiosidade por todas as ruas do Chile. Os postes de iluminação pública são sustentados por grossos cabos de aço perfurados no chão. Nós, turistas desavisados estranhamos, mas logo que avistamos as placas ‘Via de Evacuacion Tsunami y Terremoto’, entendemos o recado. O Chile tem tremores de terra todos os dias, alguns imperceptíveis, outros devastadores. Muita gente já morreu com esses tremores em todo o território chileno e vemos várias construções pelas cidades que foram parcialmente destruídas.

Os chilenos são muito educados e exercem de verdade a cidadania. Um dia me perdi pelas calles e pedi ajuda a uma moça. Na mesma hora ela tirou o celular, acessou o Google Maps e me mostrou direitinho onde eu deveria ir. Em outro dia, andando despreocupada por um parque escutei ‘Ladrón, ladrón’. Quando vi, três homens imobilizaram um outro homem, de forma firme, mas sem nenhuma violência, até a chegada dos Carabineiros.

Em Santiago do Chile, cada bairro tem um prefeito, uma espécie de síndico, eleito por voto popular, que integra a gestão pública participativa. O imposto territorial pago pelos cidadãos, o IPTU, é direcionado para os bairros que eles residem, atendendo às demandas próprias de cada região. No bairro que me hospedei, a prioridade do síndico foi contratar uma empresa para tirar diariamente o lixo das ruas durante a greve dos lixeiros.

Santiago tem uma influência inglesa muito forte, várias ruas com nomes britânicos e nas padarias muito tea e muffin. E muita cereja. Roliças e de um vermelho intenso, doce como mel. Eu passeava pela cidade com um saco de cerejas, que custa em torno de R$10,00 o quilo. Lá, a comida é cara. Uma refeição individual simples, ficava em torno de R$ 60,00. A sugestão é entrar em uma galeria e procurar uma lanchonete simples.

O metrô de Santiago tem 5 linhas que chegam até a região metropolitana, com um preço acessível e muito rápido. Em meu último dia de viagem, peguei o metrô na estação Pedro de Valdívia e desci na estação Quinta Normal. Fui conhecer o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, inaugurado em 2010 pela presidente Michele Bachellet que destina-se a dar visibilidade às violações de direitos humanos cometidos pela Ditatura Chilena de 1973 a 1990 e também outras violações pelo mundo afora.

É um lugar de sofrimento, de angústia, de revolta, de luta para manter vivo o passado chileno e para que ele não se repita. Com relatos em fotos e vídeos da época, temos acesso às crueldades do regime militar no Chile. Em um canto, a bandeira do Brasil me chama a atenção e me joga na cara que fomos o último país do mundo, com regime militar, a instaurar uma Comissão da Verdade.

Para uma brasileira em tempos de golpe, de perda da democracia, de direitos humanos e de cidadania, se aventurar pelo Chile renovou minha certeza de que é na luta coletiva e na resistência que renovamos a esperança de dias melhores, de igualdade, de justiça social. ‘Chi-Chi-Chi-le-le-le-viva-Chile’!”

*Por Sílvia Amâncio

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