O mês de outubro é marcado pela chegada do navegador genovês, Cristóvão Colombo, à América. A expedição, que desbravou rotas marítimas desconhecidas, foi financiada pela então rainha Isabel I de Castilla, relevante figura da história da Espanha.

“A primeira imagem de Isabel que surge através das páginas dos livros é a da soberana imponente, que unificou um país sob o peso do cetro e o fio da espada. Numa época na qual o governo feminino era bastante desacreditado, ela provou que seu sexo não era impedimento para o exercício do poder. Ela pode não ter sido a fundadora do que atualmente é designado como monarquia de gênero, mas com certeza, foi a primeira a ter grande destaque na Europa pós ascensão do cristianismo”, explica o historiador e autor do livro Rainhas Trágicas – Quinze Mulheres que Moldaram o Destino da Europa, Renato Drummond Neto.

Ainda de acordo com Renato, é preciso considerar outras facetas no estudo dessa figura. “Essa construção de soberana imponente, contudo, divide espaço com outros perfis, como o de mãe, esposa, empreendedora, política e até mesmo o de fanática religiosa, que perseguia judeus e muçulmanos com as chamas da inquisição”, destaca o historiador.

30 anos de regência

Isabel subiu ao trono de Castilla em 1474 e permaneceu até 1504, ano de sua morte. Não é preciso ser um profundo conhecedor do contexto em questão para imaginar os desafios enfrentados pela rainha para se manter no poder durante 30 anos e numa época em que as mulheres não tinham voz de destaque no cenário político.

Renato explica que a rainha era uma mulher ciente de suas limitações e se cercou de pessoas altamente capacitadas para ajudá-la no exercício do poder. A principal delas foi o marido Fernando II de Aragão.

“Não é possível falar do sucesso de seu reinado sem considerar o papel importante que Fernando exerceu no mesmo. Graças à ajuda do reino de Aragão, Isabel conseguiu impor seu direito ao trono de Castela e dominar a nobreza rebelde, que no governo de Henrique IV desprezava a Coroa. Uma vez no poder, ela brigou pelo trono contra sua sobrinha, Joana, cognominada a ‘Beltraneja’, que era apoiada por Portugal. Ao lado do marido, Isabel fortificou o poder da coroa, graças às importantes alianças dinásticas com outras casas reinantes da Europa”, explica Renato Drummond . 

Os Reis Católicos, Isabel e Fernando. (Imagem: National Geographic)

Já a jornalista e escritora espanhola Sandra Ferrer, autora do livro Breve Historia de Isabel la Católica, reforça que, embora Fernando tenha sido o companheiro de Isabel em Castilla, ela sempre reivindicou seu papel de rainha proprietária, não aceitando a posição de rainha consorte ou de soberana em segundo plano.

“É verdade que houve conflitos entre eles por questões de governo, mas ela, quase sempre, manteve-se firme”, afirma a jornalista.

Crueldade piedosa

A violência usada por Isabel para centralizar os poderes da Coroa e reverter o declínio do cristianismo, também é tema de estudos entre os investigadores.

“Tal faceta do reinado da rainha católica fez com que Maquiavel, defensor de tais atitudes na sua obra máxima, O Príncipe, reagisse com espanto à ‘crueldade piedosa’ praticada na Espanha”, destaca o Renato Drummond .

“É evidente que, assim como a maior parte dos governantes, nem todos os seus atos poderiam ser considerados corretos segundo o pensamento atual. No entanto, para analisar um personagem histórico é preciso situá-lo em seu contexto. Do contrário, não é possível entender seu papel em toda sua plenitude”, pontua Sandra Ferrer.

Novo Mundo

Como uma governante visionária, Isabel I de Castilla confiou no projeto de Colombo, mesmo com a oposição do marido, o rei Fernando de Aragón.

Cristóvão Colombo perante os reis católicos, Isabel e Fernando. (Representado por Emanuel Leutze)

E a história nos mostra que suas decisões impactaram até mesmo o Brasil, território posteriormente colonizado por Portugal.

“A história do reinado de Isabel se mistura com a chegada dos europeus à América, uma vez que foi graças ao seu incentivo financeiro que um continente até então desconhecido foi revelado. A primeira mulher que governou o Brasil durante o período colonial, a regente Dona Catarina da Áustria, era neta da rainha católica. Fato esse que reforça o argumento de que o legado de Isabel de Castela foi passado adiante por meio da linhagem feminina”, esclarece o historiador Renato Drummond.

Legado de Isabel I de Castilla

Sandra Ferrer destaca que são muitos os legados deixados por Isabel, como, por exemplo, o descobrimento da América, apontado pela jornalista como um dos mais importantes.

“Também é importante destacar seu papel no mundo da cultura e na defesa da educação feminina. Isabel deu a mesma educação ao filho Juan e a todas às suas filhas, além de fomentar a educação das damas que integravam a nobreza da corte”, detalha Sandra.

Ainda de acordo com a jornalista, assim como no caso de Leonor de Aquitania, uma das mulheres mais ricas e poderosas da Idade Média, a excepcionalidade de Isabel reside no fato de que ambas foram capazes de liderar um projeto político num tempo em que era vetado às mulheres o acesso às universidades e seu papel na vida era o de ser esposa e mãe ou, ainda, entrar para o convento.

Confira também:

Entrevista completa com o historiador e autor do livro ‘Rainhas Trágicas – Quinze Mulheres que Moldaram o Destino da Europa’, Renato Drummond Neto.

Y Además…

Entrevista completa con la periodista y escritora española Sandra Ferrer, autora del libro ‘Breve Historia de Isabel la Católica’