O historiador Renato Drummond conversou com a Calle Hispánica sobre a Rainha Isabel I de Castilla, personagem que determinou os rumos da história da Espanha.

Confira a entrevista completa!

Renato Drummond Tapioca Neto é Graduado em História pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).

1) Existem muitas pesquisas que buscam decifrar quem foi Isabel I de Castilla. Que Isabel você descobriu em suas pesquisas? 

A primeira imagem de Isabel que surge através das páginas dos livros é a da soberana imponente, que unificou um país sob o peso do cetro e o fio da espada. Numa época na qual o governo feminino era bastante desacreditado, ela provou que seu sexo não era impedimento para o exercício do poder. Ela pode não ter sido a fundadora do que atualmente é designado como monarquia de gênero, mas com certeza foi a primeira a ter grande destaque. Essa construção, contudo, divide espaço com outros perfis, tais como o de mãe, esposa, empreendedora, política e até mesma o de fanática religiosa, que perseguia judeus e mulçumanos com as chamas da inquisição. Há que se considerar todas essas facetas no estudo sobre a figura.

2) Qual aspecto da sua vida te parece mais curioso ou, ainda, fascinante? 

É muito interessante observar o relacionamento que a rainha tinha para com suas filhas. Apesar de ser uma mulher que governava a partir de um lugar pensado por e para os homens, a monarca recomendava às infantas Isabel, Joana, Maria e Catarina a serem esposas obedientes e compassivas, ou seja, tudo o que ela não era. Curiosamente, foi através dessas filhas que o legado de Isabel foi passado adiante.

3) Isabel era a terceira na linha de sucessão. Logo, ela não foi criada para ser uma rainha “reinante”, como normalmente acontece com um filho primogênito de uma casa real. Como, então, ela chegou ao trono tão preparada para governar?  

Isabel foi educada para ser uma rainha consorte e por muito tempo o casamento dinástico com um príncipe estrangeiro parecia ser o seu destino. Seu irmão, o rei Henrique IV, cogitava um matrimônio com Portugal ou Inglaterra, quando ela surpreendeu todos ao desposar secretamente seu primo, o herdeiro do trono de Aragão. Foi com a ajuda de Fernando que Isabel conseguiu dominar a nobreza de Castela e unificar os reinos da Espanha. Não foi uma tarefa fácil, principalmente por sua falta de preparo político, apesar do seu caráter decidido e obstinado. Consequentemente, Isabel não permitiria que a mesma falha educacional se repetisse em seus filhos e contratou professores e eruditos de vários lugares para educa-los.

4) Indo além do seu trajeto até o trono, como ela conseguiu manter tanto poder e durante tanto tempo, numa época em que as mulheres não tinham espaço nas decisões políticas?

Isabel era uma mulher ciente das suas limitações e se cercou de pessoas altamente capacitadas para ajudá-la no exercício do poder. A principal delas foi Fernando II de Aragão. Não é possível falar do sucesso de seu reinado sem considerar o papel importante que Fernando exerceu no mesmo. Graças à ajuda do reino de Aragão, Isabel conseguiu impor seu direito ao trono de Castela e dominar a nobreza rebelde, que no governo de Henrique IV desprezava a Coroa. Uma vez no poder, ela brigou pelo trono contra sua sobrinha, Joana, cognominada a “Beltraneja”, que era apoiada por Portugal. Ao lado do marido, Isabel fortificou o poder da coroa, graças às importantes alianças dinásticas com outras casas reinantes da Europa. Por outro lado, ela fez uso da violência para centralizar os poderes da Coroa e reverter o declínio do cristianismo, acreditando sentir a mão de Deus por trás de cada golpe seu. Tal faceta do reinado da rainha católica fez com que Maquiavel, defensor de tais atitudes na sua obra máxima, O Príncipe, reagisse com espanto à “crueldade piedosa” praticada na Espanha.

 

Isabel de Castela quando jovem. (Imagem: Blog Rainhas Trágicas)

5) De que forma Isabel impactou na transformação sócio-cultural da Espanha? 

Para além da unificação dos reinos da Espanha, foi no reinado de Isabel que o espírito do renascimento penetrou em Castela e transformou a vida cultural do país.

6) Na sua opinião, o que podemos considerar como sendo seu principal legado?

Isabel I de Castela era uma mulher visionária. Confiou no projeto de Colombo quando até mesmo Fernando se colocava contra essa empreitada marítima. Mas acredito que o seu principal legado foi ter aberto as portas para que outras mulheres, ao longo dos anos, pudessem assumir a coroa. Não é à toa que até hoje ela é reconhecida como a primeira grande rainha da Europa. Embora muitos possam discordar desse título, o fato é que, depois de Isabel, as monarquias europeias assistiram com maior frequência a uma sucessão de reinados prolíficos, cujas figuras de proa eram personalidades do calibre de Elizabeth I da Inglaterra e Catarina II da Rússia. A lenda de Isabel I de Castela atravessou os últimos cinco séculos da história da Europa e da América com uma força bastante singular. Seu trabalho, empreendido ao lado do rei Fernando II de Aragão, dentro de uma Espanha caótica e com características medievais, perdura até os dias de hoje

7) Podemos considerar que suas decisões impactaram até mesmo o Brasil ainda não descoberto, já que ela ajudou a financiar as viagens de Cristóvão Colombo ao Novo Mundo? 

A história do reinado de Isabel se mistura com a chegada dos europeus à América, uma vez que foi graças ao seu incentivo financeiro que um continente até então desconhecido foi revelado. A primeira mulher que governou o Brasil durante o período colonial, a regente Dona Catarina da Áustria, era neta da rainha católica. Fato esse que reforça o argumento de que o legado de Isabel de Castela foi passado adiante por meio da linhagem feminina.

Para quem curte história e, mais ainda, a história de rainhas que, assim como Isabel I de Castilla, imprimiram sua marca no tempo, Renato Drummond escreve para o blog Rainhas Trágicas.

Fruto das pesquisas desenvolvidas por um jovem estudante de História, o portal Rainhas Trágicas destina-se a resgatar do campo de interpretações equivocadas e dotadas de forte carga preconceituosa, figuras femininas que marcaram época”.

Então, fica a dica! 😉

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